domingo, 14 de julho de 2013

carta de amor

imagem: Manuel Alves

Olá.
Ainda não nos conhecíamos e já eu pensava em ti. Por mim, vivíamos tudo já, aqui, os dois, e deixávamos as preocupações do fim para depois. Sei que ainda não me conheces de verdade, mas assim também não me esqueces nem sofres de saudade. Prefiro sentir eu o vazio de não estar aí e sofrer esse buraco no peito por ti.
Sabes o que é nascer com uma pessoa no coração? É uma espécie de gravidez em que tudo o que tens a crescer dentro de ti é emoção. Quando se nasce com essa antecipação de conhecer quem se quer é preciso força para combater a solidão até se encontrar essa razão de ser.
Todos vivemos para alguém. Sem essa dedicação somos quem? Pessoa. Boa? É possível. Mas pessoa boa dedicada é preferível. Se não gostarmos assim de alguém não somos maus, somos apenas ramos de árvore secos, reduzidos a paus, sem vida para dizermos olá ao vento, e quebramos no estalo triste de um lamento. Depois vem o chão. Mas se formos dois, não há esse medo, há sempre aquela mão que nos ajuda a levantar de uma queda que nos apanha demasiado cedo.
Para sempre, e tudo o que é infinito, para além do bom e do bonito. Depois de ambos sabermos que existimos, mesmo que estejamos sós, nunca estaremos sozinhos. Insistimos até que nos falte a voz e, mesmo sem som, mesmo sem luz, seguimos esse afecto que nos conduz, e no escuro do abraço trocamos carinhos.
Queres esta oferta que te espera na minha mão aberta? Estas coisas precisam de respirar. Não se podem deitar fora mas também não se podem guardar. Resta aceitar. Ou recusar. Mas não vamos falar de decisões tristes. Aceita-me tal como eu te aceito, neste instante, ainda sem saber se existes. Esta carta só é para ti quando te encontrar. Por agora, é para mim, para me deixar sonhar.
Sonho contigo, mas sem face. É uma tristeza que me acorda a meio da noite e não me deixa dormir até que a outra metade passe. Talvez seja melhor que não recordemos dos sonhos as feições das pessoas com quem sonhamos sem conhecer. Talvez seja um favor do universo que nos deixa esse bocadinho do sonho difuso, confuso, disperso. Se o teu rosto fosse uma imagem que eu pudesse recordar depois de acordar seria um golpe de espada, porque dos sonhos só trazemos recordação e mais nada. Seria sofrer por te reconhecer sem realmente te ver. O melhor mesmo é esquecer.
Mas sei que existes. Aí, nesse lugar do mundo, ao nível do mar, a escalar ao alto da montanha tamanha ou a descer ao vale profundo. Persistes. Estejas onde o acaso quiser, preciso de ti para viver. Não é depender da tua vida para viver a minha, nada disso. É que, sem me partilhar contigo, a obra de arte que desejo da minha vida não passará de um esquisso. Sei que isto é cliché para quem lê, mas és a metade que não tenho. Enquanto não te encontrar és aquela angústia de viajar para longe de casa sem saber se regresso, e de todas as pessoas de quem me despeço se algumas perco e outras ganho.
Quero encontrar-te e conhecer-te. Quero ganhar-te e merecer-te. Depois seremos felizes. O melhor possível, que o dia-a-dia é imprevisível. Tu ris-te do que eu digo e eu rio-me do que tu dizes. Beijamo-nos todas as manhãs, todas as tardes e todas as noites, sem precisarmos de rimas, nem de poesia disfarçada numa prosa bonita. Precisamos apenas de nós, dos nossos rostos, dos nossos braços, das nossas mãos, dos nossos olhos. Das pernas que nos cruzam no caminho, dos pés que nos equilibram, do corpo todo que trocamos um com o outro. E crianças. Teremos ou não. Mas teremos sempre o que somos. Teremos coração.

De mim para ti.

13 comentários:

carpe vitam! disse...

Sorri a carta que Linda escreveu ao seu Agostinho, antes de o conhecer :) e outra pessoa/ personagem qualquer a poderia escrever. Isto sem diminuir o mérito da escrita, que poucos conseguem, mas todos podem sentir, se quiserem e assim fazer suas as tuas palavras.
Uma Carta Universal do Direito ao Amor, espécie de declaração, de oração... tem uma frescura adolescente a transbordar esperança que me agrada e agradeço bastante!

Manuel Alves disse...

É uma carta enviada ao coração de quem a quiser receber. São palavras para todos, independentemente de géneros, nacionalidades e convicções. Que as faça suas quem quiser falar de coisas que dão vontade de viver. ;)

Mafalda Sofia Antunes disse...

Oi Manuel vi conhecer o teu cantinho através do blogue da caminhante. Fizeste aqui um belo texto. Eu irei ler o teu conto e logo que possa passarei aqui para te dar a minha opinião. Muitos beijinhos e fica com deus!! http;//pontodecruzdamafalda.blogspot.pt

Carla Pisco disse...

Belas palavras como sempre Manuel... ;)

Tens uma capacidade maravilhosa de adocicar as tuas palavras, palavras tão boas...Obrigado por partilhares o seu açúcar.. ^_^

Beijinhos ^_^

carpe vitam! disse...

Isso é mesmo bonito, mas estou em crer que o cliché da metade não é assim tão verdade. Pelo menos não para todo o sempre, como nos fazem crer os contos de fadas.
E não me parece que estejamos limitados a amar apenas uma pessoa de cada vez. No entanto, a correspondência no amor não é pacífica e mesmo quando acontece, não significa que seja da mesma forma. Vamos deixar de amar, procurar quem ame melhor?
Muitas obras de arte (da literatura, música, cinema...) não existiriam se a correspondência fosse perfeita. Mas creio que seremos melhores amantes e mais felizes quando percebermos, inequivocamente, que somos todos UM.

Manuel Alves disse...

Olá, Mafalda.
Bem-vinda aqui ao cantinho fixola. :)
Espero que gostes da leitura do conto e que digas palavras bonitas acerca dele. :D
E já que chegaste aqui através do blogue de A caminhante, também podes mostrar o caminho a outras pessoas que eu recebo toda a gente. ;)

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Carla, são os anjinhos que me segredam coisas bonitas durante o sono (o meu, não o deles :D ).

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carpe, até a vida, que é aquilo que nos dura mais tempo, acaba. Nada é para sempre. Para nós, que somos seres incrivelmente finitos, a duração máxima das coisas é o nosso tempo de vida. O para sempre é o que desejamos para as coisas que queremos que durem o maior tempo possível. :) E os contos de fadas... bem, são contos. De fadas. :D
A amar, nunca estamos limitados porque amar é desafiar o impossível. Todas as implicações desse desafio é algo que cada um tem de enfrentar na sua própria realidade. ;)
Aquilo que queremos das obras arte é, não raras vezes, semelhante ao que queremos das pessoas; que nos façam sorrir, chorar, pensar, encontrar significados onde não há ou onde simplesmente não conseguimos vê-los sozinhos, que nos espantem com tudo o que descobrimos acerca delas. O desejo de encontrar alguém que nos preencha não tem de se concretizar numa correspondência perfeita no sentido imediato de duas coisas que são semelhantes. A correspondência é, ou parece, perfeita não porque está isenta de falhas e conflitos mas sim porque funciona apesar das falhas e dos conflitos. Duas metades de uma laranja, por mais semelhantes que pareçam, são diferentes. Mas não é por isso que, juntas, deixam de fazer uma laranja. ;)

carpe vitam! disse...

"Para todo o sempre" não é diferente de "até que a morte nos separe". Faz-me um bocado de confusão como as pessoas juram isso. Quando muito, eu digo "neste momento, quero ficar contigo para sempre. Não sei como vai ser amanhã, mas hoje quero ficar contigo eternamente, aceitas?"

As metades da laranja... são boas para fazer sumo! E sumo é coisa com tendência para a mistura, e depois de misturado, não se distingue qual era de qual metade. E dá para misturar mais, umas mais azedas, outras mais doces... gosto mesmo de sumo! E polpa também :)

Mafalda Sofia Antunes disse...

Teu conto da lili foi um espectáculo para mim,gostei imenso de o ler. Prometi que dava a minha opinião e aqui estou eu com ela. Beijinhos!! http://pontodecruzdamafalda.blogspot.pt

Manuel Alves disse...

Olá, Mafalda.

A tua opinião vale um sorriso. :)
Já há outro conto gratuito disponível aqui. ;)

tilida5ever design disse...

Não era suposto ser ridícula?E,por acaso,até é...Para quem tem o prazer de te conhecer (não é o caso)!
Abraço(hi)!

Manuel Alves disse...

Olá, tilida5ever design. :)
O ridículo das cartas de amor é, não raras vezes, uma perspectiva desapaixonada e exterior às pessoas a quem as palavras interessam.

Maria Rocha Peixoto disse...

MARAVILHOSO...MARVAILHOSO...MIL VEZES MARAVILHOSO!!! A-D-O-R-E-I Mr. John Doe :)

Manuel Alves disse...

Senhora dona Maria Pia, algo me diz que gostou da cartinha. :D